sexta-feira, janeiro 27, 2012

“Qual é essa guerra que travamos, na evidência de nossa derrota? Manhã após manhã, já exaustos com todas essas batalhas que vêm, reconduzimos o pavor do cotidiano, esse corredor sem fim que, nas derradeiras horas, valerá como destino por ter sido tão longamente percorrido. Sim, meu anjo, eis o cotidiano: enfadonho, vazio e submerso em tristezas. As alamedas do inferno não são estranhas a isso; lá caímos um dia por termos ficado ali muito tempo. De um corredor às alamedas: então se dá a queda, sem choque nem surpresa. Cada dia reatamos com a tristeza do corredor e, passo após passo, executamos o caminho da nossa sombria danação.”
de
Muriel Barbery, em A elegância do ouriço.
sexta-feira, janeiro 6, 2012

o território é primeiramente a distância entre dois seres de mesma espécie. o que é meu é, primeiramente, a minha própria distância.
(…)
encontrar não é colidir, é experimentar a distância que nos separa.
Peter Pál Pelbart, Como viver-só
sexta-feira, janeiro 6, 2012
“Quanto a Clarice, eu a idolatrava desde 59 quando, em Santo Amaro, li na revista Senhor o conto ‘A Imitação da Rosa’. Nos primeiros anos 60, segui lendo tudo o que ela escreveu e escrevia, meu irmão Rodrigo sempre me comprando seus livros. Ao chegar no Rio para morar, em 66, como tinha conseguido (com o ator José Wilker) seu número de telefone, decidi ligar para ela. Passei a fazê-lo com alguma regularidade. Desde a primeira vez, ela sempre parecia estar junto ao telefone esperando a ligação pois atendia mal soava o primeiro toque. (…) Nunca nos víamos, mas mantivemos uma amizade telefônica que se desfez com um desinteresse que evidentemente surgiu nela e que coincidiu com minha mudança para São Paulo.
(…)
Já em 68, por causa do assassinato do estudante Edson Luís por policiais, houve uma reunião ampla de artistas e intelectuais para exigir do governador da Guanabara uma atitude condizente. Eu viera de São Paulo só para isso e me encontrava em meio a uma pequena multidão de notáveis na ante-sala do palácio do governo, quando senti um toque em meu ombro e, voltando-me, ouvi a voz inconfundível, com seus erres guturais mesmo quando intervocálicos: “Rapaz, eu sou Clarrice Lispector”. Fiquei sem palavras: encontráva-mos justamente quando meu crescimento intelectual tinha me afastado de sua literatura. Ela, que agora podia me reconhecer por causa da TV e das fotografias, percebeu logo a natureza do desencontro e voltou-se naturalmente, deixando-me sem jeito e um tanto triste”.
Caetano Veloso, em Verdade Tropical.
quarta-feira, dezembro 21, 2011

Quando você volta a aparecer todos os dias é porque precisa que alguém te escute, que te anime, que ria da sua cara, que te diga algo que você não quer ouvir. Não de alguém. De mim. Faço o meu melhor show por alguns dias, até você voltar a não ligar. Não que eu não seja importante. Sou importante para algumas coisas.
Camilla Costa, em umas palavras para a imagem acima.
segunda-feira, dezembro 19, 2011

(…)
eu queria te abraçar por dentro do seu casaco
ficar ali dentro e esquecer tudo que os outros falam
eu queria te levar na pracinha no sol do inverno
e te mostrar a minha estante
eu queria te ler aquele poema
e que você me mostrasse uns seus
eu queria
que todos esses corações servissem para alguma coisa
(…)
daqui