guilherme athayde

design, ilustração, inspiração

as letras de jessica

A-11

Nas minhas recentes incursões no mundo do lettering e caligrafia, tive oportunidade de conhecer o trabalho de diversos designers incríveis. No entanto, através do video The Adobe Illustrator Story (um micro documentário que conta a história do Adobe Illustrator e conseqüentemente do design gráfico contemporâneo), conheci o trabalho da americana Jessica Hische.

Além de uma extensa produção, ela também desenvolve projetos na internet – divertidos e ótimas ferramentas de auto-promoção, como o Don’t Fear the Internet, que ensina básicos de web design para iniciantes, ou o Quotes and Accents, para quem tem preguiça de buscar os caracteres especiais na hora que está diagramando. O meu favorito é o Daily Drop Cap, de onde tirei a imagem que ilustra o post.

literatura

viera trazido ao engano

Jesus morre,

morre,

e já o vai deixando a vida, quando de súbito o céu por cima da sua cabeça se abre de par em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência. Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria,

Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez.

de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago

corpo, menos

trabalhar menos dá tempo livre para viver

“Meu lema é: menos é menos. Detesto a frase batida “menos é mais” porque tem embutida nela a filosofia de que mais é melhor. Nem sempre mais é melhor. Menos sempre é uma opção para melhorar sua vida. Trabalhar menos dá tempo livre para viver e trabalhar melhor. Ter menos empregados permite ter empregados melhores e mais comprometidos. Hoje, a filosofia nos negócios tem como única opção o mais: você precisa crescer rápido, vender mais, produzir mais, lucrar mais. Claro que é importante crescer, vender e lucrar. Mas muitas vezes perdemos o foco e somos desonestos com nossos projetos de vida por causa disso. O melhor exemplo são os viciados em trabalho. Todos admiram os workaholics como se eles fossem heróis. Estão errados: eles não são heróis. O verdadeiro herói está em casa, porque arranjou um jeito rápido e prático de resolver seus problemas e fazer seu trabalho.”

– Jason Fried, empresário americano, faz questionamentos relevantes ao modo de trabalhar que se desenvolveu e que replicamos há muitos anos. Leia mais nessa entrevista na Época Online

brainstorm, experiência, inspiração

tic-tac-toc

A noção em senso comum de tempo é inerente ao ser humano, visto que todos somos, em princípio, capazes de reconhecer e ordenar a ocorrência dos eventos percebidos pelos nossos sentidos. Contudo a ciência evidenciou várias vezes que nossos sentidos e percepções são mestres em nos enganar. A percepção de tempo inferida a partir de nossos sentidos é estabelecida via processos psicossomáticos, onde variadas variáveis, muitas com origem puramente psicológica, tomam parte, e assim como certamente todas as pessoas presenciaram em algum momento uma ilusão de ótica, da mesma forma de que em algum momento houve a sensação de que, em certos dias, determinados eventos transcorreram de forma muito rápida, e de que em outros os mesmos eventos transcorreram de forma bem lenta, mesmo que o relógio – aparelho especificamente construído para medida de tempo – diga o contrário.

(…)

Medir o tempo significa em princípio registrar coincidências.

O tempo, quando o Wikipedia também é um pouco poesia.

arte, experiência

quem entende desorganiza

“Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo — uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do São Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muito séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido com­preendo o que é perigoso compreender, e só como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.”

Clarice Lispector, em Mineirinho

Fonte: Grunz

experiência, missiva

pensamentos estrangeiros.

texto originalmente publicado n’O Purgatório

Há algo no silêncio que incomoda. Sem referências à mudez que acalanta algum respeito, nem à tristeza quando já não há palavras que possam mudar qualquer coisa. É o silêncio da recusa, aquele que impede o entendimento e abre um buraco negro de dúvidas. O silêncio que desorganiza, mas não consegue rearranjar o caos.

É com a palavra que me afasto dos nossos instintos irracionais e tento dar forma a existir. Afastar a ignorância profunda e ter a capacidade de reverter a timidez em ousadia, de fazer ideias tomarem dimensões e superfícies, de organizar, de compartilhar e ver que inevitavelmente temos algo em comum. A língua em todas as suas nuances, o esforço da palavra em todos os seus usos inesgotáveis, suas combinações infinitas.

Não compreender isso é dar vazão à força desorientada da revolta: um discurso de instintos, de não saber para onde se vai. A perdição de uma luta solitária, que faz do lado oposto o inimigo. O silêncio profundo dos meus pensamentos em eco dentfo da cabeça, que jamais tomarão uma forma propriamente dita, porque nunca existirão enquanto matéria e nunca se desprenderão dessa massa confusa que é não entender.

O silêncio dessa manhã enquanto repito todas aquelas dúvidas que não têm solução, porque ainda não existem. Não existem sílabas, nem frases, nem ao menos letras. São pensamentos estrangeiros.

literatura, saudade

últimas palavras sobre.

preparem-se sofredores do mundo, o tempo não é linear. o tempo vicia-se em ciclos que obedecem a lógicas distintas e que se vão sucedendo uns aos outros repondo o sofredor, e qualquer outro indivíduo, novamente num certo ponto de partida. é fácil de entender. quando queremos que o tempo nos faça fugir de alguma coisa, de um acontecimento, inicialmente contamos os dias, às vezes até as horas, e depois chegam as semanas triunfais e os largos meses e depois os didáticos anos. mas para chegar-mos aí temos de sentir o tempo também de outro modo. perdemos alguém, e temos de superar o primeiro inverno a sós, e a primeira primavera e depois o primeiro verão, e o primeiro outono. e dentro disso, é preciso que superemos os nossos aniversários, tudo quanto dá direito a parabéns a você, as datas da relação, o natal, a mudança dos anos, até a época dos morangos, o magusto, as chuvas de molha-tolos, o primeiro passo de um neto, o regresso de um satélite à terra, a queda de mais um avião, as notícias sobre o brasil, enfim, tudo. e também é preciso superar a primeira saída de carro a sós. o primeiro telefonema que não pode ser feito para aquela pessoa. a primeira viagem que fazemos sem a sua companhia. os lençóis que mudamos pela primeira vez. as janelas que abrimos. a sopa que preparamos para comermos sem mais ninguém. o telejornal que já não comentamos. um livro que se lê em absoluto silêncio. o tempo guarda cápsulas indestrutíveis porque, por mais dias que se sucedam, sempre chegamos a um ponto aonde voltamos atrás, para fazer pela primeira vez alguma coisa que nos vai dilacerar impiedosamente porque nessa cápsula se injeta também a nitidez do seu rosto, que por vezes se perde mas ressurge sempre nessas alturas, até o timbre da sua voz, chamando o nosso nome ou, mais cruel ainda, dizendo que nos ama com um riso incrível pelo qual nos havíamos justificado em mil ocasiões no mundo.”

valter hugo mãe, em a máquina de fazer espanhóis.