Category Archives: solidão

corpo, solidão

fazer tudo ir pelos ares, mesmo que de forma silenciosa

Bartleby, o personagem de Melville, não se nega a cumprir, mas também não acata as ordens no escritório em que é copista. No fim, faz ruir o ambiente ao seu redor pela resistência passiva. Ao responder “eu preferiria não” à todas as solicitações, Bartebly esvazia uma dialética, escolhendo o neutro que contradiz a produção de sentido – alimentada pelas escolhas opostas, por preferir um lado e sacrificar o outro.

Talvez Bartebly seja um exemplo hiperbólico do que Barthes chamou de “socialismo das distâncias”. Ao não escolher, o personagem de Melville afirma o seu lugar, causando um colapso sutil no mundo ao seu redor. Manter, então, certa distância do mundo seria uma forma de construir uma identidade legítima, afirmar um pouco de indiferença ao fluxo informacional contemporâneo ou, finalmente, resistir para libertar‐se.

referências, saudade, solidão

awaysickness.

o território é primeiramente a distância entre dois seres de mesma espécie. o que é meu é, primeiramente, a minha própria distância.
(…)
encontrar não é colidir, é experimentar a distância que nos separa.

Peter Pál Pelbart, Como viver-só

solidão

acho que ficamos muitos velhos,

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Porém, enquanto muitos decidem viver novos desafios com uma outra pessoa, um casal de aposentados preferiu terminar a vida sozinho. Dona Petrona Ajala de Roja, de 72 anos, e Purificação Ramon, de 74 anos, foram os primeiros a chegar ao Fórum, na manhã deste sábado, para romper uma aliança feita há 55 anos.

“Chegou o momento. Acho que ficamos muitos velhos e a separação é o melhor para nós”, declarou a aposentada ao G1, que contou ainda estar separada do esposo há três anos. Purificação Ramon disse que a decisão foi tomada em conjunto e que preferiu encerrar a vida sozinho, sem intenção de uma nova companheira, apenas acompanhado pelos nove filhos que teve com Petrona. “Vou passar o resto do tempo visitando os meus filhos. Pretendo voltar para Mato Grosso do Sul e continuar a vida”, contou. Purificação garante que vai guardar momentos inesquecíveis do meio século vivido ao lado da ex-esposa e finaliza: “Foram anos felizes e não seremos inimigos. Isso é o que importa”.

daqui.

inspiração, solidão

o amor é facinho.

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“Muita gente acredita que aquilo que se ganha com facilidade se perde do mesmo jeito. Acham que as relações que exigem esforço têm mais valor. Mulheres difíceis de conquistar, homens difíceis de manter, namoros que dão trabalho – esses tendem a ser mais importantes e duradouros. Mas será verdade?

Eu suspeito que não.

Acho que somos ensinados a subestimar quem gosta de nós. Se a garota na mesa ao lado sorri em nossa direção, começamos a reparar nos seus defeitos. Se a pessoa fosse realmente bacana não me daria bola assim de graça. Se ela não resiste aos meus escassos encantos é uma mulher fácil – e mulheres fáceis não valem nada, certo? O nome disso, damas e cavalheiros, é baixa auto-estima: não entro em clube que me queira como sócio. É engraçado, mas dói.

daqui, via Mônica Boscarino.

a foto é de Camilla Costa.

elefante, poesia, solidão

elefante, pt. 7, carlos drummond de andrade

Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos moveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
e é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.

(…)

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.

(ler mais)

Assim como Saramago, e seu carismático Salomão, Drummond cria um bicho literário ao qual se torna fácil apegar-se. E fica inesquecível na interpretação de Paulo Autran.


da coleção secreta de Camilla Costa

saudade, solidão

esquecer é melhor.

lve

Bleeding heart é um dos Florais da Califórnia, similar aos florais de Bach. É conhecido como um dos florais de desapego. É o que te dão para tomar quando o amor te suga, te entristece, te faz viver para ele, egoísta que é. Sua função é combater “possessividade ou co-dependência emocional, especialmente perda de ente querido, separações e melancolia nos relacionamentos amorosos”.

De certa forma, nestas horas, os amigos também te dão bleeding heart. Poucos te aconselham a quebrar a cara, amar até não ter mais jeito, lutar feito tigre encurralado pelo amor. Esquecer é melhor.

Mas o amor é este jogo, esta ciranda. Amo quem não me ama, quem me ama me persegue e tento fugir. Assim, somos e fazemos os outros infelizes. Algumas vezes, raríssimas, dois seres se olham e se encontram, desde o princípio. Quando acontece, são dois seres sortudos. Na maioria das vezes, diz a sabedoria, amor se constrói, não vem do acaso.

guardado a anos, esse texto é daqui.