Category Archives: literatura

literatura

viera trazido ao engano

Jesus morre,

morre,

e já o vai deixando a vida, quando de súbito o céu por cima da sua cabeça se abre de par em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência. Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria,

Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez.

de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago

literatura, saudade

últimas palavras sobre.

preparem-se sofredores do mundo, o tempo não é linear. o tempo vicia-se em ciclos que obedecem a lógicas distintas e que se vão sucedendo uns aos outros repondo o sofredor, e qualquer outro indivíduo, novamente num certo ponto de partida. é fácil de entender. quando queremos que o tempo nos faça fugir de alguma coisa, de um acontecimento, inicialmente contamos os dias, às vezes até as horas, e depois chegam as semanas triunfais e os largos meses e depois os didáticos anos. mas para chegar-mos aí temos de sentir o tempo também de outro modo. perdemos alguém, e temos de superar o primeiro inverno a sós, e a primeira primavera e depois o primeiro verão, e o primeiro outono. e dentro disso, é preciso que superemos os nossos aniversários, tudo quanto dá direito a parabéns a você, as datas da relação, o natal, a mudança dos anos, até a época dos morangos, o magusto, as chuvas de molha-tolos, o primeiro passo de um neto, o regresso de um satélite à terra, a queda de mais um avião, as notícias sobre o brasil, enfim, tudo. e também é preciso superar a primeira saída de carro a sós. o primeiro telefonema que não pode ser feito para aquela pessoa. a primeira viagem que fazemos sem a sua companhia. os lençóis que mudamos pela primeira vez. as janelas que abrimos. a sopa que preparamos para comermos sem mais ninguém. o telejornal que já não comentamos. um livro que se lê em absoluto silêncio. o tempo guarda cápsulas indestrutíveis porque, por mais dias que se sucedam, sempre chegamos a um ponto aonde voltamos atrás, para fazer pela primeira vez alguma coisa que nos vai dilacerar impiedosamente porque nessa cápsula se injeta também a nitidez do seu rosto, que por vezes se perde mas ressurge sempre nessas alturas, até o timbre da sua voz, chamando o nosso nome ou, mais cruel ainda, dizendo que nos ama com um riso incrível pelo qual nos havíamos justificado em mil ocasiões no mundo.”

valter hugo mãe, em a máquina de fazer espanhóis.

literatura

vidinha controlada e temerosa e quadradinha que me conforta

“Sento na minha cadeira classe economica confort class, acomodo minha mala de mão embaixo de meu assento. Deixo o mais perto que posso a nécessaire com mais remédios, caso eu precise. Daqui a quinze minutos, quando as portas se fecharem e o aviso de atar cintos e blábláblá…tomarei mais meio Rivotril. E então, quando o serviço de bordo começar, e os sucos e comidas e blábláblá…comerei pouco e beberei algo não muito doce e nem muito azedo e me cobrirei e tomarei mais meio Dramin. E então, com a quantia exata do que eu preciso, fracionada nas quatro partes descritas anteriormente, eu dormirei como um anjo doente. Isso tudo acontece. E essa é a vidinha controlada e temerosa e quadradinha que me conforta e ao mesmo tempo me faz estar sempre prestes a rasgar minha pele, amassar, jogar no lixo e começar de novo.

Eu não fui feita pra ela. Pra essa vidinha, pra esses medos, pra essa caipirice. Sou sempre acordada, roubada, convidada, carregada a ter emoções. E então, minutos antes de fechar os olhos, eu o vejo.”

Tati Bernardi, sempre pontual, colaborando na Confeitaria Mag

literatura

difícil como o amor.

“Uma das grandes ilusões da vida adulta, tomem nota, é achar que estamos prontos para ter plantas em casa só porque compramos vasos de plástico ou alumínio coloridos, e colocamos uma prateleira na varanda, e lembramos de molhá-las uma vez por semana. A gente nunca pensa na tesoura para fazer a poda e, principalmente, no transplante de vasos, uma fronteira a ser cruzada.

Queria transplantá-las eu mesma, na verdade, mas não sabia por onde começar,

(…)

Passei umas boas horas sentada ouvindo as recomendações de Toni, piauiense de Teresina, enquanto ele as colocava carinhosamente nos vasinhos de barro sem  graça (não houve alternativa) me dizendo sempre que “assim a planta se sente muito ótima”. A palavra “ótima” Toni usava como físicos falam de ponto ótimo de alguma coisa, condições ótimas de temperatura e pressão. Ou ao menos assim eu entendi e atribuí à sabedoria dele a precisão científica.”

Camilla Costa ontem me lembrou que criar plantas é dificil como o amor.

literatura

eis o cotidiano:

“Qual é essa guerra que travamos, na evidência de nossa derrota? Manhã após manhã, já exaustos com todas essas batalhas que vêm, reconduzimos o pavor do cotidiano, esse corredor sem fim que, nas derradeiras horas, valerá como destino por ter sido tão longamente percorrido. Sim, meu anjo, eis o cotidiano: enfadonho, vazio e submerso em tristezas. As alamedas do inferno não são estranhas a isso; lá caímos um dia por termos ficado ali muito tempo. De um corredor às alamedas: então se dá a queda, sem choque nem surpresa. Cada dia reatamos com a tristeza do corredor e, passo após passo, executamos o caminho da nossa sombria danação.

de

Muriel Barbery, em A elegância do ouriço.

arte, literatura

rapaz, eu sou clarice lispector.

“Quanto a Clarice, eu a idolatrava desde 59 quando, em Santo Amaro, li na revista Senhor o conto ‘A Imitação da Rosa’. Nos primeiros anos 60, segui lendo tudo o que ela escreveu e escrevia, meu irmão Rodrigo sempre me comprando seus livros. Ao chegar no Rio para morar, em 66, como tinha conseguido (com o ator José Wilker) seu número de telefone, decidi ligar para ela. Passei a fazê-lo com alguma regularidade. Desde a primeira vez, ela sempre parecia estar junto ao telefone esperando a ligação pois atendia mal soava o primeiro toque. (…) Nunca nos víamos, mas mantivemos uma amizade telefônica que se desfez com um desinteresse que evidentemente surgiu nela e que coincidiu com minha mudança para São Paulo.

(…)

Já em 68, por causa do assassinato do estudante Edson Luís por policiais, houve uma reunião ampla de artistas e intelectuais para exigir do governador da Guanabara uma atitude condizente. Eu viera de São Paulo só para isso e me encontrava em meio a uma pequena multidão de notáveis na ante-sala do palácio do governo, quando senti um toque em meu ombro e, voltando-me, ouvi a voz inconfundível, com seus erres guturais mesmo quando intervocálicos: “Rapaz, eu sou Clarrice Lispector”. Fiquei sem palavras: encontráva-mos justamente quando meu crescimento intelectual tinha me afastado de sua literatura. Ela, que agora podia me reconhecer por causa da TV e das fotografias, percebeu logo a natureza do desencontro e voltou-se naturalmente, deixando-me sem jeito e um tanto triste”.

Caetano Veloso, em Verdade Tropical.

literatura

monday mornings.

(…)

eu queria te abraçar por dentro do seu casaco
ficar ali dentro e esquecer tudo que os outros falam
eu queria te levar na pracinha no sol do inverno
e te mostrar a minha estante
eu queria te ler aquele poema
e que você me mostrasse uns seus
eu queria
que todos esses corações servissem para alguma coisa
(…)

daqui

elefante, literatura

elefante, pt. 17

Minha obsessão por elefantes é antiga. Mas foi reavivada depois de ver o documentário José e Pilar e ler o livro “A viagem do elefante”. Descobri que o filme está em primeiro lugar no IMDB na categoria documentários. O que o faz ser tão incrível, acredito, é a proximidade que criamos com Saramago ao longo do desenrolar da história. Que o gênio era também incrível nas situações cotidianas, um senhor tímido que, para a maioria, se escondia na pele de um senhor sisudo.

José and Pilar – “Chaos is an order to decipher” from Pedro Sousa | visuals on Vimeo.

Imagem e vídeo daqui

experiência, inspiração, literatura

sigo pensando que escribir te salva la vida

Há alguns anos, eu estava passando os canais na TV, até que parei numa emissora onde estava acontecendo um desses programas que são meio debate, meio entrevista.  O que me chamou a atenção foi a entrevistada, uma espanhola com sotaque bem carregado, falando da tatuagem que tinha, era uma salamandra ou algo assim. Ela mostrava a tatuagem e fazia uma explicação sobre o porque dela. A verdade é que agora, anos depois, não sei dizer onde era, nem porque. Não sei nem mesmo porque ela me chamou atenção: se era pelo fato de ser espanhola ou ter uma tatuagem de salamandra.

Mas eu já tinha sido capturado. Mudar de canal bruscamente é como cair no meio de uma conversa sem saber o contexto: você tem que ficar um tempo parado para entender o que se passa. E daí eu descobri que essa mulher se chamava Rosa Montero, era mesmo espanhola de Madrid, além de ser jornalista e escritora. Estava no Brasil para promover o seu livro mais recente (na época), Paixões. O livro era uma compilação de artigos escritos para um jornal madrilenho, biografias de casais famosos ao longo do tempo. Talvez o tema não me interessasse tanto, eu não era assim tão afeiçoado a biografias, mas eu precisava ler algo daquela mulher. E estava certo quando apostei na forma instigante com que Rosa narra essas histórias e como ela aborda a paixão em si, e não as histórias isoladas. Que quando ela fala daqueles personagens do mundo, ela fala na verdade de pessoas, de nós, da nossa loucura.

Mesmo tendo gostado muito desse livro, nunca havia lido mais nada dela. Até que, novamente, um dia folheando uma revista, li um comentário sobre um livro chamado A Louca da Casa. E quando me atentei bem, era novamente Rosa. Pouco tempo depois encontrei o livro por acaso quando passei em uma livraria. Um pouco diferente de Paixões, esse livro fala sobre a literatura, a imaginação, um pouco de loucura. Enquanto antes ela falava sobre as paixões, essa condição de perder-se, a literatura é a condição para ser. Como leitores, ou como escritores, para Rosa “a palavra é o que nos faz humanos“. O título desse post é tirado desse livro, e o trecho segue: “…continuo pensando que escrever pode salvar a tua vida. Quanto tudo mais falha, quando a realidade se apodrece, quando sua existência naufraga, sempre podes recorrer ao mundo narrativo”

Eu poderia dizer que A Louca da Casa é um livro para criadores, sobre processo de criação, sobre como fabular. Mas tem coisas que todos precisamos saber. E algumas estão escritas lá.