Category Archives: arte

arte, experiência

quem entende desorganiza

“Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo — uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do São Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muito séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido com­preendo o que é perigoso compreender, e só como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.”

Clarice Lispector, em Mineirinho

Fonte: Grunz

arte, música

en pleno cielo, amor amarillo.

Se a gente não sabe se ama
Se a gente não sabe se quer
Não vai saciar essa chama
Se não decifrar o que é

Se algo entre nós se insinua
E não se disfarça sequer
Não dá pra deixar pra outro dia
De outra semana qualquer

É que o amor não se dissolve assim
Sem dor
Se não for
Até o fim

(Até o Fim, Arnaldo Antunes)

Serigrafia feita a quatro mãos, por Débora Cruz e eu.

arte, literatura

rapaz, eu sou clarice lispector.

“Quanto a Clarice, eu a idolatrava desde 59 quando, em Santo Amaro, li na revista Senhor o conto ‘A Imitação da Rosa’. Nos primeiros anos 60, segui lendo tudo o que ela escreveu e escrevia, meu irmão Rodrigo sempre me comprando seus livros. Ao chegar no Rio para morar, em 66, como tinha conseguido (com o ator José Wilker) seu número de telefone, decidi ligar para ela. Passei a fazê-lo com alguma regularidade. Desde a primeira vez, ela sempre parecia estar junto ao telefone esperando a ligação pois atendia mal soava o primeiro toque. (…) Nunca nos víamos, mas mantivemos uma amizade telefônica que se desfez com um desinteresse que evidentemente surgiu nela e que coincidiu com minha mudança para São Paulo.

(…)

Já em 68, por causa do assassinato do estudante Edson Luís por policiais, houve uma reunião ampla de artistas e intelectuais para exigir do governador da Guanabara uma atitude condizente. Eu viera de São Paulo só para isso e me encontrava em meio a uma pequena multidão de notáveis na ante-sala do palácio do governo, quando senti um toque em meu ombro e, voltando-me, ouvi a voz inconfundível, com seus erres guturais mesmo quando intervocálicos: “Rapaz, eu sou Clarrice Lispector”. Fiquei sem palavras: encontráva-mos justamente quando meu crescimento intelectual tinha me afastado de sua literatura. Ela, que agora podia me reconhecer por causa da TV e das fotografias, percebeu logo a natureza do desencontro e voltou-se naturalmente, deixando-me sem jeito e um tanto triste”.

Caetano Veloso, em Verdade Tropical.

arte, experiência

em detalhes.

Em tempos de excessos de informação e curadorias dispersas, fico realmente tomado quando uma obra de arte consegue me tirar do lugar. Uma das últimas vezes que isso aconteceu foi com a obra de Doug Aitken, Eraser. Uma instalação de vídeo que está na exposição Em Nome dos Artistas, no prédio da Bienal em São Paulo. As cores esmaecidas do vídeo projetado, os degradês despropositados que aparecem nos detalhes, em frames. Estar em meio à essa configuração de cores e luzes, é impossível estar alheio.
Em Minas Gerais, o artista tem, no Inhotim, a obra Sound Pavilion, mais conhecida como Sons da Terra. A grandeza e sutiliza do som da profundidade da Terra, em uma galeria de vidro construída no alto continua nos deixando livres da dispersão. É como reconectar-se.

arte, brainstorm

renovierung.

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“O fracasso pode ser fatal para políticos e cientistas; já os artistas sempre encontram uma forma de transformar uma experiência dolorosa em nova esperança”.

Alfons Hug