Category Archives: missiva

experiência, missiva

pensamentos estrangeiros.

texto originalmente publicado n’O Purgatório

Há algo no silêncio que incomoda. Sem referências à mudez que acalanta algum respeito, nem à tristeza quando já não há palavras que possam mudar qualquer coisa. É o silêncio da recusa, aquele que impede o entendimento e abre um buraco negro de dúvidas. O silêncio que desorganiza, mas não consegue rearranjar o caos.

É com a palavra que me afasto dos nossos instintos irracionais e tento dar forma a existir. Afastar a ignorância profunda e ter a capacidade de reverter a timidez em ousadia, de fazer ideias tomarem dimensões e superfícies, de organizar, de compartilhar e ver que inevitavelmente temos algo em comum. A língua em todas as suas nuances, o esforço da palavra em todos os seus usos inesgotáveis, suas combinações infinitas.

Não compreender isso é dar vazão à força desorientada da revolta: um discurso de instintos, de não saber para onde se vai. A perdição de uma luta solitária, que faz do lado oposto o inimigo. O silêncio profundo dos meus pensamentos em eco dentfo da cabeça, que jamais tomarão uma forma propriamente dita, porque nunca existirão enquanto matéria e nunca se desprenderão dessa massa confusa que é não entender.

O silêncio dessa manhã enquanto repito todas aquelas dúvidas que não têm solução, porque ainda não existem. Não existem sílabas, nem frases, nem ao menos letras. São pensamentos estrangeiros.

brainstorm, missiva

sou importante para algumas coisas.


Quando você volta a aparecer todos os dias é porque precisa que alguém te escute, que te anime, que ria da sua cara, que te diga algo que você não quer ouvir. Não de alguém. De mim. Faço o meu melhor show por alguns dias, até você voltar a não ligar. Não que eu não seja importante. Sou importante para algumas coisas.

Camilla Costa, em umas palavras para a imagem acima.

inspiração, missiva

os dias.

———- Mensagem Encaminhada ———-
Assunto: Re: escape.

(…) porque eu quero sair e não sei para onde quero ir ou o que eu quero fazer, ou onde quero estar, ou com quem quero estar. e eu saio. e tomo meu café. e fumo meu cigarro. e acalmo. para sentir a mesma coisa depois. logo depois.

o que eu lhe daria hoje e o que eu posso dizer é que hoje eu escutaria você. escutaria você mesmo que fosse o silêncio. mesmo que te escutar fosse andar por uma cidade vazia de domingo cuidando para não me perder de você no silêncio. escutaria você tomar seu café. e também acompanharia sua fuga de você. não somente porque eu amo você. e eu amo. acompanharia porque eu sei que vez por outra a gente quer estar sozinho com a possibilidade de estender a mão, se cansar. eu seria sua mão neste domingo. se eu pudesse, hoje eu seria sua exceção na solidão absoluta.

inspiração, literatura, missiva

ir e vir.

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“Não me canso de repetir: há sempre duas viagens, uma por fora e outra por dentro, e se uma não vai embutida na outra, não haverá viagem, haverá turismo. Nunca fiz uma viagem especificamente turística e não pretendo fazer

José Carlos Oliveira, em Flanando em Paris.

clipping, missiva, saudade

infelizmente, esta carta não é de quem você esperava.

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Às vezes, é justificada a sensação de que, sem um sumiço, uma relação se eternizaria pela simples dificuldade de qualquer um dos dois reconhecer que acabou. Onde está a covardia, e onde a coragem? Não sei. Talvez haja covardia em não conseguir declarar que um amor terminou, assim como talvez haja covardia na incapacidade de escutar essa declaração. Há a covardia de quem some e também de quem sobra, quando ambos parecem precisar do sumiço de um dos dois para aceitar que a história chegou ao fim.

Há covardia também em fingir que a relação continua, quando ela já morreu. Alguém, aliás, pode sumir para fugir de sua própria covardia, que o mantém calado, ou para fugir da covardia do outro, que não quer ouvir uma frase de despedida.

Ano-Novo, vida nova, Contardo Calligaris

missiva, saudade

irrefutável.

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Chegou em casa decidido, tratou de encontrar o envelope preto de plástico, sabia bem onde estava, não foi dificil achar. Havia decidido que era a única forma de se libertar, apagar logo esse passado resistente. Achou, sentou-se. Os pensamentos, tomados e ansiosos, planejavam o fim cruel daquele objeto: rasgado, queimado, fragmentado em milhares de partículas, a sensação de vigança ao fazer tudo aquilo desintegrar-se. Sentou-se com o envelope no colo, aquele envelope afrontando. Abriu, tirou de dentro mais objetos do que imaginou haver: um papel dobrado, dois livrinhos: um volumoso e outro tímido, um outro envelope, esse pardo, com sabe-se lá o que dentro.

O ódio principal rende-se ao livro volumoso. Mas deixa ele por último. Abre o papel dobrado, algumas informações aleatórias, um número de telefone anotado que hoje não existe mais, que provavelmente mudou de endereço. Rasga-o. Em seguida o envelope pardo, que não continha nada. Uma única informação, escrita no próprio envelope: 507. Apartamento que agora encontra-se vazio, ou com outro morador, escondido nos fundos de um prédio do centro da cidade. Logo resolveu o destino desse envelope pardo, que nem ao menos precisava ser rasgado: nada continha, nenhuma prova que hoje poderá ser seguida.

No livro de volume menor, uma carta mal escrita, um rascunho. Refeita depois, fica aí a primeira prova, provavelmente mais honesta,  o único mérito de que pode gabar-se um rascunho, antes que sejam substituidos seus impulsos toscos por frases mais rebuscadas. E agora, por fim, o livro mais volumoso. Suposto culpado de tudo que não mudou. Antes do golpe final, resolveu abri-lo, ver pela última vez aquelas páginas. O que não deveria ter acontecido: viu ali, sem nenhuma chance de esconder, as provas de que foi feliz.

brainstorm, inspiração, missiva, referências

o exílio do imaginário.

Exílio. Decidindo renunciar ao estado amoroso, o sujeito se vê, com tristeza, exilado de seu Imaginário.
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(A paixão amorosa é um delírio; mas o delírio não é estranho; todo o mundo fala dele, já está domesticado. O que é enigmático é a perda do delírio: voltamos a quê?)

(…)

3. O luto da imagem, na medida em que não consigo levá-lo a cabo, me angustia; mas, na medida em que consigo realizá-lo, me entristece. Se o exílio do Imaginário é via necessária para a “cura”, deve-se convir que nesse caso o progresso é triste. Essa tristeza não é uma melancolia – ou pelo menos é uma melancolia incompleta (de modo algum clínica), pois não me acuso de nada e não estou prostrado. Minha tristeza pertence àquela orla da melancolia em que a perda do ser amado permanece abstrata. Dupla perda: nem mesmo posso investir em minha desgraça, como na época em que sofria por estar enamorado. Naquela época, eu desejava, sonhava, lutava; havia um bem diante de mim, simplesmente adiado, atravessado por contratempos. Agora, nada mais ressoa. Tudo está calmo, e é pior. Se bem que justificado por uma economia – a imagem morra para que eu viva -, o luto amoroso sempre deixa um resto: uma frase retorna sem cessar: “Que pena!”.

Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso