Category Archives: saudade

literatura, saudade

últimas palavras sobre.

preparem-se sofredores do mundo, o tempo não é linear. o tempo vicia-se em ciclos que obedecem a lógicas distintas e que se vão sucedendo uns aos outros repondo o sofredor, e qualquer outro indivíduo, novamente num certo ponto de partida. é fácil de entender. quando queremos que o tempo nos faça fugir de alguma coisa, de um acontecimento, inicialmente contamos os dias, às vezes até as horas, e depois chegam as semanas triunfais e os largos meses e depois os didáticos anos. mas para chegar-mos aí temos de sentir o tempo também de outro modo. perdemos alguém, e temos de superar o primeiro inverno a sós, e a primeira primavera e depois o primeiro verão, e o primeiro outono. e dentro disso, é preciso que superemos os nossos aniversários, tudo quanto dá direito a parabéns a você, as datas da relação, o natal, a mudança dos anos, até a época dos morangos, o magusto, as chuvas de molha-tolos, o primeiro passo de um neto, o regresso de um satélite à terra, a queda de mais um avião, as notícias sobre o brasil, enfim, tudo. e também é preciso superar a primeira saída de carro a sós. o primeiro telefonema que não pode ser feito para aquela pessoa. a primeira viagem que fazemos sem a sua companhia. os lençóis que mudamos pela primeira vez. as janelas que abrimos. a sopa que preparamos para comermos sem mais ninguém. o telejornal que já não comentamos. um livro que se lê em absoluto silêncio. o tempo guarda cápsulas indestrutíveis porque, por mais dias que se sucedam, sempre chegamos a um ponto aonde voltamos atrás, para fazer pela primeira vez alguma coisa que nos vai dilacerar impiedosamente porque nessa cápsula se injeta também a nitidez do seu rosto, que por vezes se perde mas ressurge sempre nessas alturas, até o timbre da sua voz, chamando o nosso nome ou, mais cruel ainda, dizendo que nos ama com um riso incrível pelo qual nos havíamos justificado em mil ocasiões no mundo.”

valter hugo mãe, em a máquina de fazer espanhóis.

clipping, experiência, saudade

quando você foi muito feliz em um lugar

Os anos em que morei em Paris foram os melhores da minha vida. Acho estranho falar em felicidade. Mas, de 1997 a 2004, estava muito contente lá. Dizem que, quando você foi muito feliz em um lugar, você não deve voltar. E vejo que até Paris não é mais a mesma. Mudou muito. Tinha uma banca, uma lojinha, de duas velhinhas maravilhosas. Elas sempre me cumprimentavam, conversava com elas. Às vezes, amigos meus vão e elas me mandam bilhetinhos. Tenho medo de passar lá, porque, se der de cara com a banca e elas não estiverem, não vou aguentar.

Regina Guerreiro, na TPM deste mês, numa das melhores entrevistas que já vi nessa revista.

referências, saudade, solidão

awaysickness.

o território é primeiramente a distância entre dois seres de mesma espécie. o que é meu é, primeiramente, a minha própria distância.
(…)
encontrar não é colidir, é experimentar a distância que nos separa.

Peter Pál Pelbart, Como viver-só

saudade

german classes.

11010701

Esses dias disseram-me, e tive que concordar, que aprender novas línguas é também aprender a pensar de outras formas. Coincidentemente, ao fazer uma pesquisa no meu e-mail, procurando algo bem mais burocrático, cai numa notícia sobre a busca da palavra mais bonita em alemão. A conexão, ou coincidência, entre as duas afirmativas anteriores é que aprendi, em alemão, uma das palavras que define um sentimento que nunca pude expressar, assim, de forma tão simples. Enquanto nós, que falamos português, nos orgulhamos tanto da nossa saudade, os alemães nomeiam o oposto. Fernweh, ao pé da letra, é a “dor de querer estar longe”. Ou, como explica-se melhor aqui,

If Heimweh means “homesickness”, then I guess Fernweh literally means “farsickness”. I’ve often seen it translated with yet another excellent German word: Wanderlust. It’s that feeling I get when I read travel guides, or when I think of the great vacations that I’ve had or the great vacations that I’d love to take. It’s that feeling of sand in my shoes, that itching to be out of the house and off having adventures in some far-flung corner of the world.

screen-shot-2011-06-06-at-111825-pm

Não sei qual foi a palavra eleita a mais bonita. E já que essa notícia foi de 2004, ela já deve ter sido escolhida. Eu poderia escolher uma, mas seria pretensão, das poucas sei e das tantas que existem.

clipping, missiva, saudade

infelizmente, esta carta não é de quem você esperava.

lampmm

Às vezes, é justificada a sensação de que, sem um sumiço, uma relação se eternizaria pela simples dificuldade de qualquer um dos dois reconhecer que acabou. Onde está a covardia, e onde a coragem? Não sei. Talvez haja covardia em não conseguir declarar que um amor terminou, assim como talvez haja covardia na incapacidade de escutar essa declaração. Há a covardia de quem some e também de quem sobra, quando ambos parecem precisar do sumiço de um dos dois para aceitar que a história chegou ao fim.

Há covardia também em fingir que a relação continua, quando ela já morreu. Alguém, aliás, pode sumir para fugir de sua própria covardia, que o mantém calado, ou para fugir da covardia do outro, que não quer ouvir uma frase de despedida.

Ano-Novo, vida nova, Contardo Calligaris

missiva, saudade

irrefutável.

sc0018982b
Chegou em casa decidido, tratou de encontrar o envelope preto de plástico, sabia bem onde estava, não foi dificil achar. Havia decidido que era a única forma de se libertar, apagar logo esse passado resistente. Achou, sentou-se. Os pensamentos, tomados e ansiosos, planejavam o fim cruel daquele objeto: rasgado, queimado, fragmentado em milhares de partículas, a sensação de vigança ao fazer tudo aquilo desintegrar-se. Sentou-se com o envelope no colo, aquele envelope afrontando. Abriu, tirou de dentro mais objetos do que imaginou haver: um papel dobrado, dois livrinhos: um volumoso e outro tímido, um outro envelope, esse pardo, com sabe-se lá o que dentro.

O ódio principal rende-se ao livro volumoso. Mas deixa ele por último. Abre o papel dobrado, algumas informações aleatórias, um número de telefone anotado que hoje não existe mais, que provavelmente mudou de endereço. Rasga-o. Em seguida o envelope pardo, que não continha nada. Uma única informação, escrita no próprio envelope: 507. Apartamento que agora encontra-se vazio, ou com outro morador, escondido nos fundos de um prédio do centro da cidade. Logo resolveu o destino desse envelope pardo, que nem ao menos precisava ser rasgado: nada continha, nenhuma prova que hoje poderá ser seguida.

No livro de volume menor, uma carta mal escrita, um rascunho. Refeita depois, fica aí a primeira prova, provavelmente mais honesta,  o único mérito de que pode gabar-se um rascunho, antes que sejam substituidos seus impulsos toscos por frases mais rebuscadas. E agora, por fim, o livro mais volumoso. Suposto culpado de tudo que não mudou. Antes do golpe final, resolveu abri-lo, ver pela última vez aquelas páginas. O que não deveria ter acontecido: viu ali, sem nenhuma chance de esconder, as provas de que foi feliz.

brainstorm, música, poesia, saudade

adiós hits.

separar

quando imaginamos um começo, determinamos um fim.

a separação não faz parte do vocabulário do discurso amoroso.

do incrível Fragmentos

..

ou

..

He is a fool to assume you’d spare a thought
I’m a thief who’s just been caught
And I don’t find it funny anymore

And so I won’t play the part
I played before
Oh, no…
Not to you

Play the part, Little Joy

..

ou

..

Uh… Se a gente já não sabe mais
rir um do outro meu bem então
o que resta é chorar

O vento, Los Hermanos

inspiração, literatura, saudade

teoria dos lados.

lados
Todo lado tem seu lado
Eu sou o meu próprio lado
E posso viver ao lado
Do seu lado, que era meu

“E é verdade, também que pouca gente entendeu a teoria maluca do menino maluquinho mas ele ria baixinho quando a saudade apertava pois descobriu que a saudade era o lado de um dos lados da vida que vinha aí.
Agora, vejam se pode uma descoberta dessas!
Só mesmo sendo maluco ou sendo amado demais.”

Ziraldo. O Menino Maluquinho. Melhoramentos: 1994. páginas 85-87