Category Archives: experiência

brainstorm, experiência, inspiração

tic-tac-toc

A noção em senso comum de tempo é inerente ao ser humano, visto que todos somos, em princípio, capazes de reconhecer e ordenar a ocorrência dos eventos percebidos pelos nossos sentidos. Contudo a ciência evidenciou várias vezes que nossos sentidos e percepções são mestres em nos enganar. A percepção de tempo inferida a partir de nossos sentidos é estabelecida via processos psicossomáticos, onde variadas variáveis, muitas com origem puramente psicológica, tomam parte, e assim como certamente todas as pessoas presenciaram em algum momento uma ilusão de ótica, da mesma forma de que em algum momento houve a sensação de que, em certos dias, determinados eventos transcorreram de forma muito rápida, e de que em outros os mesmos eventos transcorreram de forma bem lenta, mesmo que o relógio – aparelho especificamente construído para medida de tempo – diga o contrário.

(…)

Medir o tempo significa em princípio registrar coincidências.

O tempo, quando o Wikipedia também é um pouco poesia.

arte, experiência

quem entende desorganiza

“Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo — uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do São Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muito séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido com­preendo o que é perigoso compreender, e só como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.”

Clarice Lispector, em Mineirinho

Fonte: Grunz

experiência, missiva

pensamentos estrangeiros.

texto originalmente publicado n’O Purgatório

Há algo no silêncio que incomoda. Sem referências à mudez que acalanta algum respeito, nem à tristeza quando já não há palavras que possam mudar qualquer coisa. É o silêncio da recusa, aquele que impede o entendimento e abre um buraco negro de dúvidas. O silêncio que desorganiza, mas não consegue rearranjar o caos.

É com a palavra que me afasto dos nossos instintos irracionais e tento dar forma a existir. Afastar a ignorância profunda e ter a capacidade de reverter a timidez em ousadia, de fazer ideias tomarem dimensões e superfícies, de organizar, de compartilhar e ver que inevitavelmente temos algo em comum. A língua em todas as suas nuances, o esforço da palavra em todos os seus usos inesgotáveis, suas combinações infinitas.

Não compreender isso é dar vazão à força desorientada da revolta: um discurso de instintos, de não saber para onde se vai. A perdição de uma luta solitária, que faz do lado oposto o inimigo. O silêncio profundo dos meus pensamentos em eco dentfo da cabeça, que jamais tomarão uma forma propriamente dita, porque nunca existirão enquanto matéria e nunca se desprenderão dessa massa confusa que é não entender.

O silêncio dessa manhã enquanto repito todas aquelas dúvidas que não têm solução, porque ainda não existem. Não existem sílabas, nem frases, nem ao menos letras. São pensamentos estrangeiros.

experiência

inércia.


minha inércia é cósmica.

quando estou fora, minha tendência é ficar fora pra sempre. preciso de muito pouco, tenho excelentes amigos, vou pulando de casa em casa, lavando a louça alheia, dormindo onde caio, trabalhando do meu laptop. então, vou ficando fora… (não visito meu próprio apartamento há mais de um mês.)

quando estou dentro, minha tendência é ficar dentro pra sempre. preciso de muito pouco, tenho tudo em casa, os amigos sempre aparecem pra visitar. então, vou ficando dentro….

Alex Castro, Ao Léu

via Mariana Gogu

clipping, experiência, saudade

quando você foi muito feliz em um lugar

Os anos em que morei em Paris foram os melhores da minha vida. Acho estranho falar em felicidade. Mas, de 1997 a 2004, estava muito contente lá. Dizem que, quando você foi muito feliz em um lugar, você não deve voltar. E vejo que até Paris não é mais a mesma. Mudou muito. Tinha uma banca, uma lojinha, de duas velhinhas maravilhosas. Elas sempre me cumprimentavam, conversava com elas. Às vezes, amigos meus vão e elas me mandam bilhetinhos. Tenho medo de passar lá, porque, se der de cara com a banca e elas não estiverem, não vou aguentar.

Regina Guerreiro, na TPM deste mês, numa das melhores entrevistas que já vi nessa revista.

experiência

voltamos à programação normal.

Mercúrio entra em movimento Retrógrado a cada três meses, durante três semanas.
Quando Mercúrio está no seu movimento Retrógrado há uma interferência no funcionamento das áreas de comunicação, telefonia, telecomunicação, componentes eletrônicos, serviços de entrega, serviços de informação, correio, transportes, veículos, estradas e acessos.
É indispensável ser mais rigoroso no uso ou na prestação de serviços que envolvem essas áreas:

– Fax, telefones, veículos, equipamentos, máquinas e computadores apresentam mais defeitos.
– Veículos e máquinas comprados apresentam defeitos crônicos ou dificuldade de entrega.
– Fio, ligações, tubos e conexões podem falhar ou serem mal feitos
– O trânsito, acessos e redes estão prejudicados
– Papéis, documentos, contratos e assinaturas apresentam problemas e devem ser copiados e revisados
– Cláusulas de contratos e prazos estabelecidos geralmente são alterados e renegociados
– Tarefas apresentam mais falhas e precisam ser refeitas
– Cirurgias devem ser evitadas. A perícia está menos acentuada e erros podem ocorrer
– exames e diagnósticos devem ser reavaliados
– Mudança de idéias ocorrem para favorecer ou desfavorecer uma situação
– A comunicação pessoal pode geral mal entendidos
– Informações devem ser checadas. Os dados podem estar alterados, errados ou incompletos

daqui

arte, experiência

em detalhes.

Em tempos de excessos de informação e curadorias dispersas, fico realmente tomado quando uma obra de arte consegue me tirar do lugar. Uma das últimas vezes que isso aconteceu foi com a obra de Doug Aitken, Eraser. Uma instalação de vídeo que está na exposição Em Nome dos Artistas, no prédio da Bienal em São Paulo. As cores esmaecidas do vídeo projetado, os degradês despropositados que aparecem nos detalhes, em frames. Estar em meio à essa configuração de cores e luzes, é impossível estar alheio.
Em Minas Gerais, o artista tem, no Inhotim, a obra Sound Pavilion, mais conhecida como Sons da Terra. A grandeza e sutiliza do som da profundidade da Terra, em uma galeria de vidro construída no alto continua nos deixando livres da dispersão. É como reconectar-se.

experiência

colaborar/cooperar

Aconteceu poucas vezes, pelo menos que eu tenha notado, que as cartas de tarot, as previsões astrológicas e os cientistas/intelectuais tivessem o mesmo discurso. Incrível, mas agora estamos vivendo um momento desses, e o que eles dizem é: o mundo está em uma fase de mudanças. Pode parecer óbvio, estamos sempre mudando, mas é um momento especial, digamos, em que uma configuração vigente por muito tempo não se sustenta mais, e os novos caminhos são abertos à força.

WHAT’S MINE IS YOURS from rachel botsman on Vimeo.

Pode ser um pouco de otimismo, mas eu acho que o melhor desse mundo porvir são as tentativas de transformar uma sociedade de consumo em uma sociedade colaborativa. O que pode parecer um pouco óbvio, mas a plataforma on-line, cada vez mais acessível, realmente democratizou a comunicação. E os exemplos são diversos: a Vogue não é mais a única referência das tendências de moda, que agora está cada vez mais pulverizada por blogs independentes; você não precisa mais comprar o Lonely Planet para fazer o seu roteiro de viagem, que pode estar baseado em dicas de pessoas em comunidades ou sites de viagens. Na verdade, você não precisa nem mais ficar em um hotel quando viaja, pode ocupar o sofá de alguém que você nunca viu na vida.

E obviamente não pára por aí: agora não são somente as celebridades que nos inspiram e que são modelos, pode ser um amigo seu, que ficou famoso em um Twitter e que criou lá uma expressão que todo mundo anda falando. São pessoas comunicando para pessoas. E assim que elas querem ser vistas: como gente. Não são consumidores, nem público-alvo. E aí que entra a colaboração, porque enquanto o consumo é uma via de devastação, as plataformas colaborativas tem vias duplas, de troca, mais sustentáveis e contemplam mais as experiências únicas.

Mobilizar, movimentar, criar e circular conhecimento. Sustentar os ninchos que nos interessam, deixar de ser massa.

Mais: Collaborative Consumption

experiência, inspiração, literatura

sigo pensando que escribir te salva la vida

Há alguns anos, eu estava passando os canais na TV, até que parei numa emissora onde estava acontecendo um desses programas que são meio debate, meio entrevista.  O que me chamou a atenção foi a entrevistada, uma espanhola com sotaque bem carregado, falando da tatuagem que tinha, era uma salamandra ou algo assim. Ela mostrava a tatuagem e fazia uma explicação sobre o porque dela. A verdade é que agora, anos depois, não sei dizer onde era, nem porque. Não sei nem mesmo porque ela me chamou atenção: se era pelo fato de ser espanhola ou ter uma tatuagem de salamandra.

Mas eu já tinha sido capturado. Mudar de canal bruscamente é como cair no meio de uma conversa sem saber o contexto: você tem que ficar um tempo parado para entender o que se passa. E daí eu descobri que essa mulher se chamava Rosa Montero, era mesmo espanhola de Madrid, além de ser jornalista e escritora. Estava no Brasil para promover o seu livro mais recente (na época), Paixões. O livro era uma compilação de artigos escritos para um jornal madrilenho, biografias de casais famosos ao longo do tempo. Talvez o tema não me interessasse tanto, eu não era assim tão afeiçoado a biografias, mas eu precisava ler algo daquela mulher. E estava certo quando apostei na forma instigante com que Rosa narra essas histórias e como ela aborda a paixão em si, e não as histórias isoladas. Que quando ela fala daqueles personagens do mundo, ela fala na verdade de pessoas, de nós, da nossa loucura.

Mesmo tendo gostado muito desse livro, nunca havia lido mais nada dela. Até que, novamente, um dia folheando uma revista, li um comentário sobre um livro chamado A Louca da Casa. E quando me atentei bem, era novamente Rosa. Pouco tempo depois encontrei o livro por acaso quando passei em uma livraria. Um pouco diferente de Paixões, esse livro fala sobre a literatura, a imaginação, um pouco de loucura. Enquanto antes ela falava sobre as paixões, essa condição de perder-se, a literatura é a condição para ser. Como leitores, ou como escritores, para Rosa “a palavra é o que nos faz humanos“. O título desse post é tirado desse livro, e o trecho segue: “…continuo pensando que escrever pode salvar a tua vida. Quanto tudo mais falha, quando a realidade se apodrece, quando sua existência naufraga, sempre podes recorrer ao mundo narrativo”

Eu poderia dizer que A Louca da Casa é um livro para criadores, sobre processo de criação, sobre como fabular. Mas tem coisas que todos precisamos saber. E algumas estão escritas lá.