pensamentos estrangeiros.

texto originalmente publicado n’O Purgatório

Há algo no silêncio que incomoda. Sem referências à mudez que acalanta algum respeito, nem à tristeza quando já não há palavras que possam mudar qualquer coisa. É o silêncio da recusa, aquele que impede o entendimento e abre um buraco negro de dúvidas. O silêncio que desorganiza, mas não consegue rearranjar o caos.

É com a palavra que me afasto dos nossos instintos irracionais e tento dar forma a existir. Afastar a ignorância profunda e ter a capacidade de reverter a timidez em ousadia, de fazer ideias tomarem dimensões e superfícies, de organizar, de compartilhar e ver que inevitavelmente temos algo em comum. A língua em todas as suas nuances, o esforço da palavra em todos os seus usos inesgotáveis, suas combinações infinitas.

Não compreender isso é dar vazão à força desorientada da revolta: um discurso de instintos, de não saber para onde se vai. A perdição de uma luta solitária, que faz do lado oposto o inimigo. O silêncio profundo dos meus pensamentos em eco dentfo da cabeça, que jamais tomarão uma forma propriamente dita, porque nunca existirão enquanto matéria e nunca se desprenderão dessa massa confusa que é não entender.

O silêncio dessa manhã enquanto repito todas aquelas dúvidas que não têm solução, porque ainda não existem. Não existem sílabas, nem frases, nem ao menos letras. São pensamentos estrangeiros.

[ssba]

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