corpo, solidão

fazer tudo ir pelos ares, mesmo que de forma silenciosa

Bartleby, o personagem de Melville, não se nega a cumprir, mas também não acata as ordens no escritório em que é copista. No fim, faz ruir o ambiente ao seu redor pela resistência passiva. Ao responder “eu preferiria não” à todas as solicitações, Bartebly esvazia uma dialética, escolhendo o neutro que contradiz a produção de sentido – alimentada pelas escolhas opostas, por preferir um lado e sacrificar o outro.

Talvez Bartebly seja um exemplo hiperbólico do que Barthes chamou de “socialismo das distâncias”. Ao não escolher, o personagem de Melville afirma o seu lugar, causando um colapso sutil no mundo ao seu redor. Manter, então, certa distância do mundo seria uma forma de construir uma identidade legítima, afirmar um pouco de indiferença ao fluxo informacional contemporâneo ou, finalmente, resistir para libertar‐se.

experiência

inércia.


minha inércia é cósmica.

quando estou fora, minha tendência é ficar fora pra sempre. preciso de muito pouco, tenho excelentes amigos, vou pulando de casa em casa, lavando a louça alheia, dormindo onde caio, trabalhando do meu laptop. então, vou ficando fora… (não visito meu próprio apartamento há mais de um mês.)

quando estou dentro, minha tendência é ficar dentro pra sempre. preciso de muito pouco, tenho tudo em casa, os amigos sempre aparecem pra visitar. então, vou ficando dentro….

Alex Castro, Ao Léu

via Mariana Gogu

arte, música

en pleno cielo, amor amarillo.

Se a gente não sabe se ama
Se a gente não sabe se quer
Não vai saciar essa chama
Se não decifrar o que é

Se algo entre nós se insinua
E não se disfarça sequer
Não dá pra deixar pra outro dia
De outra semana qualquer

É que o amor não se dissolve assim
Sem dor
Se não for
Até o fim

(Até o Fim, Arnaldo Antunes)

Serigrafia feita a quatro mãos, por Débora Cruz e eu.

literatura

vidinha controlada e temerosa e quadradinha que me conforta

“Sento na minha cadeira classe economica confort class, acomodo minha mala de mão embaixo de meu assento. Deixo o mais perto que posso a nécessaire com mais remédios, caso eu precise. Daqui a quinze minutos, quando as portas se fecharem e o aviso de atar cintos e blábláblá…tomarei mais meio Rivotril. E então, quando o serviço de bordo começar, e os sucos e comidas e blábláblá…comerei pouco e beberei algo não muito doce e nem muito azedo e me cobrirei e tomarei mais meio Dramin. E então, com a quantia exata do que eu preciso, fracionada nas quatro partes descritas anteriormente, eu dormirei como um anjo doente. Isso tudo acontece. E essa é a vidinha controlada e temerosa e quadradinha que me conforta e ao mesmo tempo me faz estar sempre prestes a rasgar minha pele, amassar, jogar no lixo e começar de novo.

Eu não fui feita pra ela. Pra essa vidinha, pra esses medos, pra essa caipirice. Sou sempre acordada, roubada, convidada, carregada a ter emoções. E então, minutos antes de fechar os olhos, eu o vejo.”

Tati Bernardi, sempre pontual, colaborando na Confeitaria Mag

Sem categoria

caymmi tinha razão.

As obrigações de Caymmi e outras artes, por Tatiana Mendonça

Parecia que só sabia passar o dia deitado na rede, esperando a inspiração chegar, mas a Caymmi faltava mesmo era tempo.  Se o tivesse, poderia ter ficado rico de tanto pintar quadro. Coisa fina, de dar inveja a Carybé. Mas não. A verdade é que suas obrigações o consumiam: visitar Dona Menininha, saudar Xangô, conversar com os amigos, andar nas ruas, olhar o mar, não fazer nada. E aí, cadê tempo?

Caymmi transmitiu esse assoberbamento a Jorge Amado, que andava em Londres. A carta está numa exposição em homenagem ao centenário do escritor, no Museu da Língua Portuguesa. Fiquei muitos minutos parada só olhando para ela, lendo, relendo, para tentar entender quando foi mesmo que, com essa pressa compulsiva por eficiência, a gente desaprendeu a viver.  Veja você:

“Jorge meu irmão, são onze e trinta da manhã e terminei de compor uma linda canção para Yemanjá pois o reflexo do sol desenha seu manto em nosso mar, aqui na Pedra da Sereia. Quantas canções compus para Janaína, nem eu mesmo sei, é minha mãe, dela nasci. Talvez Stela saiba, ela  sabe tudo, que mulher, duas iguais não existem, que foi que eu fiz de bom para merecê-la? Ela te manda um beijo, outro para Zélia e eu morro de saudade de vocês.  Quando vierem, me tragam um pano africano para eu fazer uma túnica e ficar irresistível. 

Ontem saí com Carybé, fomos buscar Camafeu na Rampa do Mercado, andamos  por aí trocando pernas, sentindo os cheiros, tantos, um perfume de vida ao sol, vendo as cores, só de azuis contamos mais de quinze e havia um ocre na parede de  uma casa, nem te digo. Então ao voltar, pintei um quadro, tão bonito, irmão, de causar inveja a Graciano. De inveja, Carybé quase morreu e Jenner, imagine!, se fartou de elogiar, te juro. Um quadro simples: uma baiana, o tabuleiro com abarás e acarajés e gente em volta. Se eu tivesse tempo, ia ser pintor, ganhava uma fortuna.  O que me falta é tempo para pintar, compor vou compondo devagar e sempre, tu sabes como é, música com pressa é aquela droga que tem às pampas sobrando por aí. O tempo que tenho mal chega para viver: visitar Dona Menininha, saudar Xangô, conversar com Mirabeau, me aconselhar com Celestino sobre como investir o dinheiro que não tenho e nunca terei, graças a Deus, ouvir Carybé mentir, andar nas ruas, olhar o mar, não fazer nada e tantas outras obrigações que me ocupam o dia inteiro.  Cadê tempo pra pintar? 

Quero te dizer uma coisa que já te disse uma vez, há mais de vinte anos quando te deu de viver na Europa e nunca mais voltavas: a Bahia está viva, ainda lá, cada dia mais bonita, o firmamento azul, esse mar tão verde e o povaréu. Por falar nisso, Stela de Oxóssi é a nova iyalorixá do Axé e, na festa da consagração, ikedes e iaôs, todos na roça perguntavam onde anda Obá Arolu que não veio ver sua irmã subir ao trono de rainha? Pois ontem, às quatro da tarde, um  pouco mais ou menos, saí com Carybé e Camafeu a te procurar e não te encontrando, indagamos: que faz ele que não está aqui se aqui é seu lugar? A lua de Londres,  já dizia um poeta lusitano que li numa antologia de meu tempo de menino, é merencória. A daqui é aquela lua. Por que foi ele para a Inglaterra? Não é inglês, nem  nada, que faz em Londres? Um bom filho-da-puta é o que ele é, nosso irmãozinho. 

Sabes que vendi a casa da Pedra da Sereia? Pois vendi. Fizeram um edifício medonho bem em cima dela e anunciaram nos jornais: venha ser vizinho de Dorival Caymmi. Então fiquei retado e vendi a casa, comprei um apartamento na Pituba, vou ser vizinho de James  e de João Ubaldo, daquelas duas ‘línguas viperinas, veja que irresponsabilidade a minha.

Mas hoje, antes de me mudar, fiz essa canção para Yemanjá que fala em peixe  e em vento, em saveiro e no mestre do saveiro, no mar da Bahia. Nunca soube falar de outras coisas. Dessas e de mulher. Dora, Marina, Adalgisa, Anália, Rosa morena,  como vais morena Rosa, quantas outras e todas, como sabes, são a minha Stela com quem um dia me casei te tendo de padrinho. A bênção, meu padrinho, Oxóssi te proteja nessas inglaterras, um beijo para Zélia, não esqueçam de trazer meu pano africano, volte logo, tua casa é aqui e eu sou teu irmão Caymmi”.